As mulheres sempre tiveram dificuldades para se destacarem em diversos ramos do conhecimento, e nas ciências humanas nunca foi diferente. No entanto, este fenômeno – porque nós, estudiosas, professoras, acadêmicas, não podemos acreditar que seja uma constante, mas um evento que acontece e que tem raízes profundas na história – não passa desapercebido no ambiente acadêmico, especialmente com a ascensão e luta das novas intelectuais por reconhecimento de suas ideias. Sem dúvida, diversos são os fatores, e ouso afirmar que dentre eles temos uma dominação masculina não apenas na dimensão externa a nós, mulheres, como também na dimensão interna.

Objetividade e Feminilidade

Ao desenvolvermos nossas investigações ou, até mesmo, no simples estudar a Bíblia, tendemos a repetir o modelo masculino de pesquisa que envolve – acima de tudo – objetividade. Mas espera aí, a mulher não consegue ser objetiva? Claro que consegue, e isto demonstramos no nosso próprio fazer teológico, por meio de um método e/ou utilizando demasiadamente da racionalidade. Ao longo da história, a razão tem sido colocada em primeiro lugar, fato este que se intensificou durante a Idade Moderna. O Iluminismo foi o clímax deste deslocamento de prioridades. O sensível, o emocional, o experiencial era pouco (ou quase nada) valorizado em detrimento do pensar, produto da atividade da razão. Platão, no diálogo de Sócrates com Glauco, em A República (VII, 518 a-e) já apontava para este caminho: “[…] a faculdade de pensar é, ao que parece, de um caráter mais divino, do que tudo o mais; nunca perde a força e, conforme a volta que lhe derem, pode tornar-se vantajosa e útil, ou inútil e prejudicial”. Em sua fala, Sócrates comparava o exercício do pensamento com as demais faculdades que possuímos, como por exemplo, a do observar.

Ora, não que o pensar seja uma atividade predominantemente masculina, mas a rejeição do sentimento e da emoção, esta sim é uma peculiaridade do método acadêmico de pesquisa, que é, por sua vez, dominado por homens. Se houver qualquer proximidade entre estas duas observações, ela reside no fato de que durante muito tempo os intelectuais do sexo masculino conseguiram se manter à frente da estruturação do método investigativo, impedindo que as mulheres pudessem ampliar este campo à sua maneira, com suas próprias potencialidades. É comum ouvirmos estudiosas reclamando que, para alcançar um ponto de igualdade com seus mestres e colegas homens, é preciso entrar no mesmo jogo desenvolvido por eles, se masculinizando. Este masculinizar ocorre porque rejeitamos aquilo que é próprio do se tornar mulher, no esforço de desenvolver uma mentalidade próxima ao modelo da classe que impera naquele espaço. Afinal, é um grupo social em que, para nele ser aceito, é necessário nos conformarmos às suas regras.

Hegemonia e grupos sociais

Antonio Gramsci, filósofo italiano do século XX, elaborou um conceito de hegemonia bastante conhecido a partir de suas leituras de Karl Marx. Para ele, existem duas classes evidentes na sociedade civil: a que domina e a que se deixa dominar. A análise otimista deste autor nos leva a crer que é possível reverter este quadro no momento em que os dominados decidirem reconhecer suas próprias identidades e valores culturais, optando por abandonar o modelo imposto por aqueles que dominam (um estudo bem completo e didático deste conceito foi desenvolvido neste texto). Claramente não podemos aplicar este raciocínio diretamente à nossa discussão, mas podemos reciclá-lo. Gramsci aborda uma temática polêmica ao conferir autonomia à classe dominada para construir um novo cenário. No entanto, esta autonomia deve ser buscada e, no caso das mulheres, mantendo como horizonte aquilo que elas são e do que são capazes e, em sua busca, derrubando o muro dos moldes masculinos e masculinizantes.

Neste ponto, meu questionamento se dirige à estas mulheres: porque sentimos tanta necessidade de sermos aceitas pelos homens? Não basta o reconhecimento de nós mesmas e daqueles que nos valorizam pela forma como pensamos?

Outro aspecto interno da mulher que é guiado pelas expectativas masculinas é a sua linguagem. Somos nós que necessitamos nos adequar à concepção masculinizante de indivíduo, reproduzindo termos como “o homem”, “professor”, “autor” e outras nomenclaturas em que nós, mulheres, automaticamente nos excluímos. A exemplo, nos lembremos da dificuldade de muitos em aceitarem o termo “presidenta”, ao invés de “presidente”, situação essa que gerou discussões controversas. No âmbito acadêmico, a expressão desta linguagem é ainda mais aparente não apenas no vocabulário como no próprio raciocínio que é necessário realizar para expor alguma ideia, conclusão, hipótese. Se não falarmos como homem, demonstraremos que não pensamos como homem, não somos homem e este reconhecimento como iguais é dificultado pelos próprios homens envolvidos no meio.

Porém, a pergunta que logo surge à nós é: o que é então pensar e falar como mulher? Existe mesmo esta divisão?

Cada indivíduo é diferente e se torna aparente ao outro a partir de sua identidade, de quem ele é. Esta identidade não pode ser captada por nós. Hannah Arendt, filósofa alemã, já discutia este desaparecimento do eu para si mesmo em sua obra magna A Condição Humana. Se alguém nos perguntar: quem é você? Possivelmente tentaremos respondê-la ou respondê-lo a partir de nosso nome ou afirmando aquilo que acreditamos ser, isto é, sou risonha, ou melancólica, ou impulsiva, ou estudante, ou mãe, mas nada disso define quem nós somos. Todavia, se outra pessoa nos vê, ela consegue nos identificar, nos chama pelo nome e sabe quem nós somos. Isto significa que existem coisas em nós que o outro percebe e que é justamente o que diferencia a cada um. As duas questões que coloquei acima remetem, portanto, à famosa citação de Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo, pp. 9-10):

O Segundo Sexo

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a criança não pode apreender-se como sexualmente diferenciada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo. O drama do nascimento, o da desmama desenvolvem-se da mesma maneira para as crianças dos dois sexos; têm elas os mesmos interesses, os mesmos prazeres; a sucção é, inicialmente, a fonte de suas sensações mais agradáveis; passam depois por uma fase anal em que tiram, das funções excretórias que lhe são comuns, as maiores satisfações; seu desenvolvimento genital é análogo; exploram o corpo com a mesma curiosidade e a mesma indiferença; do clitóris e do pênis tiram o mesmo prazer incerto; na medida em que já se objetiva sua sensibilidade, voltam–se para a mãe: é a carne feminina, suave, lisa, elástica que suscita desejos sexuais e esses desejos são preensivos; é de uma maneira agressiva que a menina, como o menino, beija a mãe, acaricia-a, apalpa-a; têm o mesmo ciúme se nasce outra criança; manifestam-no da mesma maneira: cólera, emburramento, distúrbios urinários; recorrem aos mesmos ardis para captar o amor dos adultos”.

O ser mulher envolve um processo gradativo de assimilação da identidade social e cultural do feminino (e que não foi masculinizado ou não está sujeito ao modelo patriarcal). Da mesma forma, muitas preferem assumir a identidade do masculino, e não há problema algum nisto, exceto se esta assimilação ocorrer por motivo de querer ser aceita em um ambiente de dominância do homem. A luta da mulher não envolve apenas uma busca pela igualdade, mas uma investigação aprofundada sobre o que significa esta igualdade, visto que é ser igual no diferente, ser reconhecida como ser humana e mulher. Neste sentido, precisamos, antes de tudo, nos questionar: o que é a mulher? Se, por tanto tempo, fomos orientadas a um ideal masculinizado de ser, que nos conforma a um modelo específico nos impedindo de nos apresentar como sentimos que devemos ser, é preciso questionar se tantas práticas nossas correspondem à nossa identidade feminina ou se são fruto de uma tentativa de correspondência a expectativas dos homens com relação à nós. E se for este o último caso, como deveríamos agir então, sendo mulheres? É uma provocação que deixo para as leitoras e leitores que, de alguma forma, se sentem instigados a querer um mundo diferente, cientes de que este não é um desejo simples.

É formada em Teologia, nível Bacharelado, na Faculdade Nazarena do Brasil e mestranda em Filosofia – linha de pesquisa Ética e Filosofia Política – na Universidade Estadual do Oeste do Paraná. É autora do canal Pensar Teologia e seu site é http://www.elissagabriela.com.