Hoje falamos muito sobre preservar a Natureza – com N maiúsculo, mesmo que haja quem diga que lutar pelo meio ambiente é bobagem. Mas parece que a visão geral é de que essa natureza que precisa (ou não) ser conservada é composta unicamente daquelas áreas magníficas e intocadas pelo homem, como a Amazônia, os recifes de corais do Pacífico Sul ou as geleiras da Patagônia. As áreas que já foram “contaminadas” pelos seres humanos já não fazem mais parte da natureza, e nossas casas, cidades e fábricas vivem num mundo separado, completamente “humanizado”. A natureza está lá fora – fora de nosso mundo civilizado e controlado, como na representação abaixo:

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Mas, apesar de toda a nossa sofisticação tecnológica, ainda precisamos, como todos os outros seres vivos, conseguir recursos de algum lugar, sejam eles tão “originários” quanto comida e água ou tão “tecnológicos” quanto energia elétrica e internet banda larga. No entanto, todos estes recursos sempre vêm, em última instância, da natureza. Além disso, como todos os outros seres vivos, precisamos de algum lugar para dispor nossos rejeitos, desde esgoto e restos de comida até lixo hospitalar, bem como rejeitos radioativos. Estes rejeitos são enviados no final das contas para a mesma natureza de onde obtemos nossos recursos.

Assim, nossa relação ser-humano-natureza começa a se parecer um pouco mais assim:

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Nós retiramos os recursos da natureza para a nossa sobrevivência e devolvemos a ela nossos rejeitos.

O problema desta visão é que ainda coloca os seres humanos como completamente distintos da natureza. Claro, nos relacionamos com ela, de diferentes maneiras, mas ainda somos fundamentalmente outros.

Não existimos em uma bolha de civilização dentro de uma natureza selvagem. Para pessoas de uma grande metrópole, até mesmo os parques municipais já são “a natureza”, seja o parque do Ibirapuera em São Paulo ou o Hyde Park em Londres. Para alguém de uma cidade menor, o “campo”, os sítios e fazendas representam a “natureza”. E para as pessoas do “campo”, a natureza é o mato, o sertão, as cachoeiras.

Assim, é curioso, que nós, seres humanos, tenhamos nos esquecido de que também fazemos parte da natureza. Mesmo os centros urbanos mais degradados estão repletos de “natureza”: pardais e andorinhas nos fios de eletricidade, baratas e mosquitos nos importunando dentro de casa, bactérias e fungos decompondo nossa comida, nosso lixo e nossas construções. Todos estes seres vivos são tão naturais quanto um urso panda ou uma orquídea endêmica da Mata Atlântica. Eles seguem as mesmas leis naturais de sobrevivência, reprodução e competição – que aliás nós, seres humanos também seguimos. Um mosquito não está especialmente preocupado se vai colocar os seus ovos numa poça formada pela chuva em um oco de tronco caído no meio da floresta ou dentro de um pneu esquecido no quintal. Ele também não se preocupa se vai se alimentar de um quati, de uma pessoa ou um gato doméstico.

Neste sentido, uma cidade, um parque ou uma fazenda fazem tanto parte da natureza quanto o deserto do Sahara ou a Antártida, e portanto, nossa concepção da relação entre ser humano e natureza deveria ser mais ou menos assim:

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Os seres humanos compõem a natureza, são natureza também.

É claro que uma área de Mata Atlântica possui uma biodiversidade muito maior do que uma cava abandonada de uma antiga mineração de ouro, e isso pode justificar a importância de nossos esforços de conservação. Afinal, qualquer esforço para conservar o meio ambiente custa caro, e dinheiro, ao que parece, não brota em árvores. Mas tanto a floresta quanto a mina fazem parte do planeta Terra, e todas as duas, querendo ou não, estão interligadas ao nosso ecossistema.

Deste modo, se precisamos conservar as áreas menos impactadas pela atividade humana – aquelas que antes desse papo todo chamaríamos de mais “naturais” – não só por suas riquezas e potencial biológico, mas porque temos uma responsabilidade de cuidar de nosso mundo e nossa casa, isto então significa que mesmo áreas que não possuem tanta riqueza e potencial biológico – sejam o interior da Caatinga brasileira, o porto de Tubarão no Espírito Santo ou uma mina abandonada – merecem e devem ser conservadas, cuidadas e, quem sabe, recuperadas, por mais longe que estejam de nossa visão idealizada de uma natureza virgem e selvagem. Porque, no final das contas, somos todos Natureza, e cuidar da natureza significa, também, cuidar de nós.

Francisco Baptista

Doutorando em Biologia Vegetal (USP), na linha de Biologia de Sistemas, bacharel em Ciências Biológicas (UFMG), com ênfase na área de Sistemática Vegetal e pós-graduando lato-sensu em Educação à Distância: Planejamento, Educação e Gestão na instituição de ensino Claretiano. No Saber Criativo, atua na gestão financeira, monitoria do Ambiente Virtual de Aprendizagem e na criação de cursos na área de Meio Ambiente. Se interessa pelo estudo dos temas: Meio Ambiente, Ecologia e Sustentabilidade; Biologia Vegetal; Educação à Distância.