Quando a teologia e a filosofia conseguem dialogar, então ganhamos todos nós. É o que tem acontecido com o surgimento da Filosofia do Processo, que deu ensejo à Teologia do Processo.

Essa reflexão teve início com Alfred Whitehead (1861-1947), que desenvolveu um sistema de pensamento baseado na física, o qual culminou numa filosofia da religião. Esse pensador concluiu que a natureza não é estática, pois não há uma substância inerte. O que devemos observar é o processo: uma sucessão de eventos. Um dinamismo radical impulsiona a realidade. A característica desse dinamismo é a criatividade, que ocasiona todo o vir-a-ser e realiza as potencialidades. A realidade é um processo: uma sucessão de eventos. Portanto, a realidade é aquilo que está acontecendo neste momento.

O evento é uma pulsação. E esse momento se perpetua, pois ele pode atuar no evento seguinte. Cada evento tem a qualidade de vetor, pois aponta para além de si, penetrando em outros eventos. Tudo é influenciado por tudo. Portanto, o substrato último da realidade é uma potencialidade indeterminada, que é a causa de todo o vir-a-ser. A teoria elétrica da matéria identifica-a com energia. Isso significa que a matéria estática e inerte não existe. O conceito fundamental da realidade é o evento, aquilo que está acontecendo agora.

O evento é bipolar: ele traz consigo o passado e ele também é herdado no evento seguinte. O evento serve de vetor, e ele sempre ocasiona uma novidade em relação à realidade que o precede. Por isso, ele também prefigura o futuro. Os eventos exercem influência e persuasão uns sobre os outros. Sua característica é a mudança e a transformação. O evento é sempre algo novo em relação à realidade que o precede. Cada evento decide e determina como vai realizar suas possibilidades. Cada evento é livre. De um modo sintético, cada evento concentra em si o universo. Todo evento é uma “apreensão” e um organismo. O evento apreende em si o universo. E sendo uma unidade sintética do universo, o passado está contido nele e o futuro se prefigura.

A criatividade é um princípio de novidade; é a realização de potencialidades. Um exemplo é a cor azul, que é um “objeto eterno”, uma mera possibilidade, que necessita de um evento para se tornar realidade. Esse dinamismo radical requer um Princípio de Concreção. O impulso criador precisa ser ordenado por um Princípio de Concreção, para delimitar o vir-a-ser. Por isso, ele também é um Princípio de Limitação. Somente mediante a atuação do Princípio de Concreção é explicável o aparecimento desta realidade. Esse Princípio de Concreção é Deus. Somente Deus possibilita que se compreenda o “como” e o “porquê” dos acontecimentos. A realidade se concretiza por intermédio de Deus. Ele é determinante em cada evento.

Toda a realidade é bipolar. Cada evento é influenciado pelo anterior e influencia o seguinte. Deus atua dentro da realidade. Ele está presente no mundo e o mundo influencia Deus. O relacionamento entre Deus e o mundo é bipolar. Deus não impõe, mas age por persuasão. Um evento pode rejeitar a proposta de Deus e efetivar uma experiência desintegradora. Deus não é o causador direto do mal. Diante de uma situação desintegradora, Deus pode estabelecer novas relações, objetivando um propósito bom. Mediante a persuasão, Deus torna efetiva a sua proposta salvífica.

Mediante o seu agir, Deus está presente no mundo. Mas, em sua liberdade, Deus transcende o mundo. A Filosofia do Processo adota o panenteísmo, que não deve ser confundido com panteísmo. Enquanto o panteísmo dissolve Deus no mundo, pois considera todos os seres divinos, o panenteísmo preserva a transcendência de Deus em relação ao universo. Deus está presente em toda a realidade, mas preserva sua transcendência. Isso significa que Deus é imanente em seu agir e transcendente em sua liberdade.

O futuro pode ser previsto com algum grau de probabilidade, mas diante da diversidade de forças, sempre podem ocorrer resultados imprevisíveis. A realidade está aberta, mas isso não significa ausência de propósito.

A Filosofia do Processo provoca uma reavaliação do conceito de tempo. Nem o universo e nem Deus são prisioneiros do tempo, pois este só existe junto a acontecimentos.

A Filosofia do Processo teve continuidade com Charles Hartshorne (1897-2000). A partir do pensamento de Whitehead, ele enfatizou a dimensão pessoal de Deus. Ele também reelaborou o conceito da onipotência de Deus. Hartshorne declara que a realidade é constituída de uma pluralidade de poderes.

Cada ser vivo está imbuído de algum poder, que pode ser empregado para um objetivo positivo ou para um fim destrutivo. Uma pessoa é livre para tomar decisões acertadas e também é livre para destruir a si e aos outros. Existir é ser parcialmente autodeterminante. Assim como a realidade se apresenta, não é possível que um único ser detenha literalmente todo o poder. Por mais poderoso que Deus seja, ele respeita a autonomia de todos os seres vivos, também quando os mesmos prejudicam a si próprios e aos demais. Deus age mediante a persuasão. Portanto, o mal é uma decorrência das manifestações equivocadas dos seres vivos.

Deus engloba todos os eventos que constituem a história do mundo; ele é a estrutura intemporal de relações entre todos os eventos. A ação de Deus é a sua influência no âmbito do processo.

Deus age em toda a realidade. Mas a realidade também retroage sobre Deus. Ele influencia os seres humanos, mas estes também causam uma impressão em Deus. E essa impressão permanece em Deus, mesmo depois de nossa morte. O teólogo Jürgen Moltmann apresentou com muita clareza o pensamento da Teologia do Processo. Nessa reflexão, ele não vê necessidade de estabelecer uma distinção entre Filosofia e Teologia.

A teologia do processo norte-americana de Alfred North Whitehead e Charles Hartshorne chamou essa permanência na relação com Deus de “imortalidade objetiva”. Não apenas Deus age em todas as coisas, mas também todas as coisas retroagem sobre Deus. Os seres humanos não são apenas criados por Deus, eles, por sua vez, também causam uma impressão em Deus. Não somente nós fazemos a experiência de Deus, mas o próprio Deus faz uma experiência de nós, e essa “experiência” que Deus faz conosco permanece em Deus, mesmo que nós passemos. Nossa vida é perecível no tempo, contudo temos uma eterna presença junto a Deus. A história de nossa vida é passageira, nós mesmos a esquecemos com rapidez, mas para Deus ela é como um “livro da vida”, que permanece eternamente na memória de Deus exatamente assim como Deus experimentou a nossa vida.

A ideia de uma “imortalidade objetiva” junto à eternidade de Deus por si só ainda não constitui um pensamento consolador. Será que gostaríamos de recordar durante toda a eternidade tudo quanto dissemos, fizemos e vivenciamos? A memória de Deus, segundo os salmos do Antigo Testamento, também não é uma fita de vídeo de nossa vida, gravada do céu e que roda eternamente, mas é uma memória misericordiosa, que cura e que põe em ordem: “Recorda-te de mim segundo a tua misericórdia” e “não recordes os pecados de minha juventude”. É a “face luminosa” do amor de Deus que nos fita, não a lente fria de uma câmara do serviço secreto do Estado (Moltmann, No início, o fim: breve tratado sobre a esperança, pp. 132-33).

Se a proposição de que Deus age e reage soa como inusitada para alguns cristãos, então ouçamos a Bíblia Sagrada.

Um episódio ilustrativo está registrado em Ex 32,7-14: o povo foi infiel e fabricou o bezerro de ouro. Deus decidiu exterminar os idólatras e começar uma nova nação com Moisés. O líder intercedeu pelo povo e Deus voltou atrás.  “Ele falava em exterminá-los; porém Moisés, seu escolhido, colocou-se na brecha diante dele para conter sua ira destruidora” (Sl 106,23). A intercessão de Moisés fechou uma brecha na muralha protetora do povo. O delito da idolatria havia aberto uma brecha, por onde iria se introduzir a ira divina. A intercessão de Moisés fechou a passagem.

O episódio mostra que Deus se deixou influenciar pela intercessão de Moisés. Se não fosse assim, as orações não teriam sentido. O Deus vivo tem a capacidade e a dinamicidade para voltar atrás. Ele age e reage. E desse modo ele constrói a história juntamente com a humanidade. Deus é o mesmo em sua essência, mas ele evolui em suas relações.

A partir da Filosofia do Processo surgiu a Teologia do Processo, destacando-se John B. Cobb Jr., David Griffin, Langdon Gilkey, Robert C. Neville, David Ray Griffin e Schubert Ogden.

Paulo Rückert

Em sua peregrinação, Paulo Rückert cursou Teologia, Filosofia e pós-graduação em Psicanálise. Tem mestrado em Ciência da Religião. Atuou como pastor, professor de teologia e terapeuta. Atualmente desfruta sua aposentadoria em Lagoa Santa – ao lado de Maria Luiza e perto dos três filhos e dois netos.