Uma senhora acabara de ficar viúva, depois de 32 anos de casamento. Os filhos estavam morando em outra cidade e não tinham muito tempo para dedicar à mãe. Com essa dor e esse vazio, ela foi procurar pessoas que a ajudassem. Depois de uma noite mal dormida, ela procurou uma amiga de longa data. As duas tinham muito a conversar. Mas, quando a viúva começou a falar de sua solidão, a amiga emendou com seus queixumes pessoais, como quem está dizendo: “Todo mundo tem problemas e os meus devem ser tão grandes ou maiores do que os teus”. A viúva fez mais duas tentativas para falar de seu sofrimento, mas a amiga estava resoluta: deveria rebater com mais lamúrias (iguais ou maiores, no seu entender). Resultado: depois de uma noite mal dormida, a viúva também teve um dia desperdiçado. Voltou para casa vazia e sentindo-se pior. Havia procurado apoio e encontrou insensibilidade.

Aos 63 anos, aquele homem sempre vigoroso foi hospitalizado. Nunca estivera internado antes. E, agora, os exames mostraram que ele estava com câncer. O diagnóstico caiu como uma bomba sobre ele. Aquele homem robusto já não queria mais se alimentar. Os sedativos o ajudavam a dormir. Felizmente havia naquele hospital uma equipe de voluntários fazendo visitas a doentes. A voluntária incumbida de visitá-lo havia sido bem preparada para esse ministério pela capelania hospitalar. Antes da visita hospitalar, ela se preparou mediante oração. Ela se informou sobre a situação do paciente. Seus trajes eram sóbrios, discretos, não portava joias e nem perfume acentuado. Ela se sentia incumbida por Deus. Ao entrar no quarto, a voluntária o cumprimentou, apresentando-se e pronunciando o nome do paciente. Perguntou-lhe se ele aceitaria uma visita. Ela falava baixo e pausadamente. Ela possibilitou ao paciente falar espontaneamente sobre a sua enfermidade e sofrimento. Ela se interessou pelo depoimento do paciente, mas não transformou esse interesse em curiosidade. Depois de ouvir o relato do paciente, ela perguntou se poderia ler um texto da Bíblia. Em seguida, ela orou – de um modo sereno e confiante. Tudo foi entregue nas mãos de Deus.

São dois episódios contrastantes. Mas, o que faltou no contato que a senhora procurou? E o que foi tão marcante na visita que o paciente recebeu no hospital? A diferença está num conceito simples, mas decisivo: empatia. Uma vez que a empatia é tão fundamental no relacionamento interpessoal e, sobretudo, no diálogo com alguém que se encontra em sofrimento, vamos refletir sobre estas duas definições. A primeira definição foi formulada pelo psicólogo Rollo May.

“Empatia” vem da tradução de uma palavra usada pelos psicólogos alemães, Einfühlung, que significa literalmente “sentir dentro”. É derivada do grego pathos, que quer dizer um sentimento forte e profundo, semelhante ao sofrimento e tendo como prefixo a preposição in. É uma palavra obviamente paralela a “simpatia”. Mas, enquanto “simpatia” denota “sentir com” e pode levar à sentimentalidade, “empatia” significa um estado de identificação mais profundo de personalidade em que uma pessoa se sente tão dentro da outra que chega a perder temporariamente a sua própria identidade. É neste profundo e um tanto misterioso processo de empatia que ocorrem a compreensão, a influência e outras relações significativas entre as pessoas (Rollo May, A arte do aconselhamento psicológico, p. 65).

Também o psicoterapeuta Irvin Yalom – autor de Quando Nietzsche chorou –  legou-nos uma definição bastante apropriada.

Empatia na dose certa é um traço essencial não apenas para os terapeutas, mas também para os pacientes, e devemos ajudar os pacientes a desenvolverem empatia pelos outros. Tinha sempre em mente que nossos pacientes geralmente nos procuram porque não têm sucesso em desenvolver e manter relacionamentos interpessoais gratificantes. Muitos não conseguem empatizar com os sentimentos e experiências dos outros. Acredito que o aqui-e-agora oferece aos terapeutas uma maneira poderosa de ajudar os pacientes a desenvolverem empatia. A estratégia é simples e direta: ajude os pacientes a sentirem empatia por você, e eles automaticamente farão as extrapolações necessárias para outras figuras importantes em suas vidas. É bem comum os terapeutas perguntarem aos pacientes como uma determinada sentença ou ação deles poderia afetar os outros. Sugiro simplesmente que o terapeuta inclua a si próprio nessa pergunta (Irvin Yalom, Os desafios da terapia, p. 38).

O terapeuta Richard Carlson tornou-se conhecido com o seu livro Não faça tempestade em copo d’água, um best-seller que foi publicado em 135 países. Ele reflete a empatia a partir da compaixão.

Nada ajuda a desenvolver mais nossa perspectiva de vida do que aprender a ter compaixão pelos outros. A compaixão é um sentimento empático. Ela implica a vontade de nos colocarmos no lugar dos outros, de tirarmos os olhos de nós mesmos e imaginarmos o que é viver as dificuldades alheias, bem como, simultaneamente, sentir amor por essas pessoas (Richard Carlson, Não faça tempestade em copo d’água).

Podemos nos exercitar na compaixão, afirma o terapeuta e escritor.

A compaixão é algo que pode ser desenvolvido com a prática. Envolve, basicamente, duas coisas: intenção e ação. Intenção significa simplesmente abrir seu coração a outras pessoas; você desloca a noção de que e quem importa, de você para os outros. Ação é simplesmente “o que faço com isso”.  Tudo que podemos fazer são pequenas coisas com muito amor (Richard Carlson, Não faça tempestade em copo d’água).

Novamente Rollo May deve usar a palavra, para nos ajudar na preparação e, assim, nos sentirmos incumbidos por Deus para esta nobre tarefa, que é a visitação.

A vida não é uma questão de simples otimismo, pois o mal existe; nem de mero pessimismo, pois o bem também existe. A possibilidade da nobreza frente ao mal é que dá à vida seu significado trágico (Rollo May, A arte do aconselhamento psicológico, p. 161).

Você se sente chamado(a) para ser um(a) visitador(a) hospitalar?

Maria Luiza Ruckert

Maria Luiza Rückert é pastora com especialização em Capelania Hospitalar. Cursou Teologia na EST e Clínica Pastoral no Hospital da Universidade de Minnesota. Fez pós-graduação em Ética, subjetividade e cidadania na EST. Atuou por duas décadas no Hospital Evangélico de Vila Velha, ES. Autora do livro Capelania hospitalar e ética do cuidado (Editora Ultimato). Seu e-mail: maria.luiza.ruckert@gmail.com Seu site: www.capelaniamarialuiza.org.