As constantes mudanças que as nossas sociedades vem desenvolvendo no decorrer do tempo em diferentes áreas do saber, promovem também novas possibilidades de pensamento sobre o educativo e sobre o processo pedagógico, como resultado do comprometimento de outro processo: o de ensino-aprendizagem para o século XXI.

Dessa forma, faz-se necessário à Teologia em seu campo específico de ensino, buscar reflexão no processo educativo, onde não somente o teológico[1], mas também quanto ao sujeito do processo formativo[2], passe a experimentar e vivenciar essas transformações de forma a beneficiar suas ações formativas, podendo buscar novas alternativas didáticas e metodológicas de promoção desse processo de ensino-aprendizagem, junto com outro importante sujeito – os educandos –  sem com isso, ambos, serem colocados como meros expectadores, incluindo as nossas comunidades de fé em sua tarefa missionária e de constituição histórica como corpo de Cristo, mas como promotores de uma nova realidade a partir de Cristo. Podemos considerar que em meio a esses avanços, a grande maioria das nossas propostas formativas, a partir do teológico, podem ser vistas confrontadas com tais mudanças globais, ocasionando um certo desgaste interno na teologia pela impossibilidade aparente de aprimorar metodologicamente o seu ensino, levando sua proposta de formação a uma situação que pode ser considerada de pouca relevância para o rompimento de alguns paradigmas do conhecimento em sua busca de melhores bases de ensino e aprendizagem, que se voltem para a peregrinação da igreja e para a sinalização do Reino no mundo.

Nesse sentido, Julio Zabatiero (2006), em sua investigação acerca das muitas questões envolvendo a educação teológica, nos diz que, em meio ao debate contemporâneo sobre essa proposta formativa, a “preocupação com a educação teológica é evidente, rica e saudável, a ênfase recai, porém, muito mais na dimensão teológica do que na educacional” (ZABATIERO, 2006, p. 149 – destaque do autor).

De uma forma geral, Zabatiero, nos mostra que tanto no Brasil, como na América Latina, e podemos também inferir outros continentes e países (guardando os devidos cuidados para não incorrermos em generalizações), as reflexões tematizando a educação teológica são necessárias, mas ainda não conseguem promover alterações significativas no que diz respeito aos projetos teológicos-pedagógicos.

Julio menciona também que existem propostas alternativas que são problematizadas e encaminhadas para uma possível prática, como foi o caso de uma antiga proposta, mas ainda muito aplicável hoje, feita por meio de uma Consulta Teológica convocada pela Fraternidade Teológica Latino Americana (FTL)[3] no final da década de 1980, cujo tema foi: Novas Alternativas de Educação Teológicas, que de acordo com Zabatiero, tematizou especificamente as questões do nosso interesse nesse ensaio, ou seja, o pedagógico, que conforme destaca o autor, essa e outras tentativas “diagnosticam a crise da educação teológica e procuram apontar caminhos para sua superação” (2006, p. 153).

Rolando Gutiérrez-Cortés (1986) que contribuiu ricamente com uma palestra nessa Consulta, já destacava e questionava aos seus colegas sobre a necessidade de considerar uma nova metodologia para a educação teológica. Rolando, propõe muitas perguntas envolvendo a possibilidade de diálogo entre o método teológico e o método educacional, que obviamente sabemos que, este último, é analisado pelas pedagógica como ciência que estuda a educação.

Para o autor, “se a educação tem que ver com investigação, ensino e a difusão da cultura, então para educar teologicamente é necessário investigar, ensinar e difundir teologicamente” (GUTIÉRREZ-CORTÉS,1986, p. 71 – tradução nossa), ou seja, o que Rolando está nos dizendo aqui é exatamente a importância dessa aproximação e não a negação e validez do educacional-pedagógico em detrimento do teológico, pois temos que “tomar em conta que a educação teológica é um processo de ensino e aprendizagem (também) para articular a fé, enfocando cada problema da vida a partir da bíblia” (Ibid., p. 73 – parêntese e tradução nossa)

Assim, entendemos que no diálogo pode estar uma proposta de superação, ou seja,  tal superação é extremamente necessária, pois de acordo com David Suazo (2004) essa é uma preocupação global. Prova disso foi a realização de um congresso no Oxford Center for Mision Studies, em Oxford – meados do final da  década de 1990 – bem como no ano de 2003, em High Wycombe (Inglaterra), com a promoção de encontros similares convocados pela Internacional Council of Evangelical Theological Education (ICETE) – envolvendo diversas instituições teológicas que buscavam, assim como foi com a Consulta da FTL, a pertinência, importância e utilidade da educação teológica, pois nas palavras de David Suazo:

As igrejas afirmam que o produto que sai dos seminários não é aquele que as igrejas necessitam mais. Por outro lado, o mundo da educação está mudando tanto, que a educação teológica parece estar fora do mercado, a menos que se adapte a nova realidade da globalização (SUAZO, 2014, p. 248 – tradução nossa)

Suano, logicamente não está nos indicando uma aproximação com o globalização e mercado em seu sentido negativo onde a educação é vista como um “produto”, entre outros. O que podemos significar da sua citação é exatamente o enfoque do elemento educacional, que em nível global está sendo sinalizado para diálogo como forma de auxilio, frente aos desafios das nossas realidades.

No início dos anos 2000, a FTL convocou o IV Congresso Latino Americano de Evangelização (CLADE), onde em uma de suas mini conferências também nos sinalizou os desafios que a educação teológica teria diante desse novo século que estávamos iniciando. E qual foi um dos desafios? A questão envolvendo a aproximação com o educativo, o pedagógica, pois ao nos informar que alguns aspectos precisam de uma nova definição, como, por exemplo, “a formação de docentes que respondam a esses desafios”; a “formação de docentes investigadores e facilitadores de processos de mudança”; a necessidade de “tomar a sério o desenvolvimento de novas aprendizagens, os avanços da pedagogia”; a ênfase na “formação do caráter dos estudantes, mas que a acumulação de conhecimento” e “intercâmbio e qualificação do docente”, são alguns dos exemplos que efetivamente demonstram uma busca de superação, onde o aporte pedagógico pode auxiliar. Isso fica muito mais evidente na seguinte conclusão:

A educação teológica atual necessita mais facilitadores que promovam e acompanhem pastoralmente o processo de aprendizagem dos estudantes de teologia. Isto implica uma revisão das práticas pedagógicas, as formas de avaliação e a produção e leituras de textos (CLADE IV, 2001, p. 179 – tradução nossa).

Nesse sentido, e para concluir essa parte, mencionamos a excelente contribuição que Alberto Roldán (2014) nos trouxe em sua apresentação no CLADE V, que foi realizado na cidade de San José, Costa Rica, no ano de 2012.  Para esse autor, tanto a teologia como a educação teológica sempre se dão em um determinado contexto histórico e cultural. Logo, a partir da pós-modernidade que, em si já subsiste o caráter de superação de realidades (moderno para o pós-moderno), alguns modelos de educação teológica já não conseguem mais responder adequadamente aos novos contextos e realidade históricas e culturais.

Roldán, pensando a partir do pós-moderno, considera uma nova alternativa de educação teológica em termos pedagógicos, pois evoca a atenção para o pensamento típico do educativo quando diz que, a educação deverá colocar a atenção nos processos educativos que é muito mais do que a exposição de conteúdos:

(…) junto ao diálogo em múltiplas direções, será necessário privilegiar o caráter crítico do ato educativo superando as meras transmissões de conhecimento e conteúdos que nem sempre respondem as necessidades dos alunos participantes. Deverão ensiná-los métodos de leitura crítica que implicam, como básico, determinar como disse Lyotard: quem transmite?; A quem?; Com que base?; De que forma?: Com que efeito? (ROLDÁN, 2014, p. 250 – tradução nossa)

Diante do exposto, as instituições teológicas possuem alternativas de rever suas ações formativas e o seu papel no aprimoramento da sua prática educativa, sendo que, o pedagógico no teológico se demonstra evidente para uma análise sobre seus conceitos didático-metodológicos, visando a constituição segura de uma postura pedagógica ao momento atual, cumprindo assim sua função transformadora pautando o resultado de suas ações em saber concreto para a Glória de Deus.

Notas:

[1] Entendido aqui somente como conteúdos de seu currículo historicamente estabelecido e compartilhado.

[2] Teólogos, doutores, mestres e facilitadores.

[3] http://ftl-al.org

Imagem por Freepik.

Robinson Jacintho

Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e coordenador do recém organizado Grupo de Trabalho (GT) em educação pela Fraternidade Teológica Latino Americana (FTL) e membro da junta diretiva da Centro de Estudos Teológicos Interdisciplinares (CETI).