Este é o primeiro post de uma série chamada “Caminhos e descaminhos do saber”, por Jonathan Menezes, da Faculdade Teológica Sul-Americana, sobre a relação da Teologia com o conhecimento.

Este primeiro artigo reflete o potencial do conhecimento de promover o afastamento das pessoas e algumas maneiras com as quais podemos lidar com isso.

À medida que os próximos artigos da série forem publicados, seus links serão colocados aqui para facilitar a navegação.

 

Quando saber não é o bastante

O saber ou conhecimento ensoberbece (dá lugar à arrogância), mas o amor edifica.

Conhecemos bem esse texto paulino (1Co 8:1). Quantas vezes não o utilizamos para o despropósito de dizer que o conhecimento não vale de nada; que a razão atrapalha a fé; ou, pensando particularmente em nosso caso (num curso de teologia), que o sujeito se torna descrente se estuda demais. Mas será que é isso que Paulo está dizendo?

Se olharmos atentamente a toda a passagem (8:1-13), veremos que o conhecimento é um elemento importante aqui, mas não é o centro da questão. O centro tem a ver com uma disputa entre facções dentro da comunidade cristã sobre a licitude de comer um certo tipo de comida (aquela que era sacrificada aos ídolos). A existência de facções não é uma grande surpresa se considerarmos que isso aconteceu na cidade de Corinto.

Corinto era uma cidade multicultural. Nela conviviam judeus, cidadãos romanos, gregos, imigrantes (sírios e egípcios); era uma verdadeira Babel sociocultural. Era também uma cidade plurirreligiosa. A adoração monoteísta caminhava lado a lado com a politeísta (deuses greco-romanos, deuses estrangeiros, sem falar no próprio Imperador). A igreja, por sua vez, não estava alheia a essa diversidade. Era étnica (judeus e “pagãos”) e socialmente diversa – do tesoureiro da cidade ao escravo; de camponeses à gente da elite.

Corinto não era Atenas, mas a classe alta nutria pretensões filosóficas e se orgulhava de seu conhecimento e sabedoria. A questão do texto está diretamente associada a isso. Por um lado, judeus e cristãos, agradecem a Deus pela comida; por outro, os pagãos honram aos deuses nos atos de celebração envolvendo refeição.

A comunidade cristã em Corinto estava dividida entre, pelo menos, duas facções: (a) Os “fortes”, eram aqueles que diziam, acertadamente, que ídolos e deuses não eram nada, pois no fundo só há um Deus. Eram “fortes” porque privilegiados por esse “conhecimento” e pela “liberdade” que gozavam na participação social; (b) os “fracos”, em geral, eram provavelmente pagãos recém-convertidos; em sua vida anterior, estavam acostumados com o sacrifício aos ídolos, por isso, ao ver irmãos e irmãs participando dessas refeições, sua consciência era maculada, escandalizada.

Tudo isso chegou a Paulo, algum tempo após sua partida, em forma de “bomba atômica”. Sua preocupação pastoral e recomendações nos traz, ainda hoje, luz sobre o que fazer, como cristãos maduros e sóbrios (10:15), diante de disputas facciosas.

 

Primeiro: Aprender a temperar nosso conhecimento com amor.

Como fala a pessoas maduras, Paulo começa com um paradoxo: (a) todos temos algum conhecimento (v. 1); (b) mas quem acha que sabe, ainda não aprendeu como saber/pensar. É preciso desconfiar do que já sabemos e de como fazemos uso do que sabemos, porque o conhecimento infla (ensoberbece, nos faz orgulhosos), e se torna instrumento de destruição (ser mais que os outros). E isso é muito importante: uma pessoa pode até desempenhar uma função ou realizar uma performance melhor que outra pessoa, mas isso não faz dela uma pessoa melhor.

A questão não é abandonar o conhecimento, mas temperar o saber com o amor. É perguntar se o conhecimento nos faz pessoas melhores (e não apenas mais sabidas). Além disso, reconhecer que a gente só sabe em parte (1Co 13:9) é um modo cristão autêntico de habitar harmoniosamente na casa do conhecimento e na casa do amor, até que os dois formem uma só casa.

 

Segundo: Aprender que, mais que o saber, o que importa são as pessoas.

Paulo diz: eu sei, vocês sabem – o ídolo não é nada! Deus é tudo, há somente um Deus! Essa comida é igual a qualquer outra. Mas não é todo mundo que sabe disso. Portanto, saber não basta, não pode preencher tudo. “O conhecimento verdadeiro não é insensível” (TAM). Não é insensível ao outro, à pessoa, que está além do saber, o irmão e a irmã de caminhada, a quem prezamos.

Na década de 70, em O sofrimento que cura, Nouwen dizia lamentar ver sua igreja dividida em questões (gênero, homossexualidade). Então dizia que uma igreja dividida em questões, tende a se esquecer das pessoas. Hoje somos um país também dividido por questões (políticas, ideológicas, religiosas, sociais, etc.). Por causa dessas coisas nos tornamos inimigos de quem pensa e se posiciona de modo diferente, ao ponto de demonizar e excluir tal pessoa de nosso rol de relacionamentos. Não cristãos fazem isso; cristãos também.

Jesus, o fundador e cabeça da Igreja, porém, sempre acreditou que entre nós podia e devia ser diferente: que o primeiro é o que serve; que mulheres e homens têm igual importância; que os últimos serão os primeiros; que pequeninos, pecadores, publicanos e prostitutas nos precederiam no reino dos céus; que pessoas importam mais que coisas ou questões.

 

Terceiro: Aprender que com grandes saberes vêm grandes responsabilidades.

A começar pela responsabilidade de não colocar “em prática” tudo o que sabe; a abrir mão do “meu direito”, da “minha liberdade”. É obvio que, numa sociedade capitalista, liberal, narcisista e individualista isso soa como uma tremenda heresia!

Mas Paulo era universalista. Ele era bobinho o bastante para acreditar que, às vezes, o particular precisa ser sacrificado em favor do todo – muito antes disso ser tão polêmico como é hoje. E mais: ele usou seu próprio exemplo como alguém que, “mesmo livre das exigências e expectativas de todos”, tornou-se “voluntário para com todos a fim de ganhar todo tipo de gente” (1Co 9.19, TAM). Ele não queria só falar, mas também encarnar a mensagem.

Então, já que o ídolo não é nada; já que comer ou deixar de comer não nos faz mais próximos de Deus, nem melhores que ninguém, é o seguinte: abram mão! Não sacrifiquem as pessoas mais fracas por causa do seu conhecimento e da sua liberdade, não! Porque se vocês macularem isso, se vocês ferirem essas pessoas, ao próprio Cristo estarão fazendo.

Então, podemos perguntar: como é a que a gente pode fazer isso, Paulo? É simples, ele disse, vocês têm que agir de modo semelhante a Jesus (Cf. Fp. 2.5-11). Em outras palavras, contramão de um mundo inflado e tão cheio de si; na contramão de religiosos que só querem se encher do sobrenatural de Deus; na contramão de suas teologias, ideologias, e causas partidárias: ESVAZIEM-SE!

Num mundo dividido em facções, que a gente não se esqueça de Jesus; nem de que naquela cruz, todo direito e toda liberdade foram redimidos, mas também esvaziados. Que o saber, ainda mais o teológico, deve existir para ajuntar e edificar, e não para dividir. Se vier a dividir, como ocorreu com Jesus, que não seja pela nossa soberba, mas pelo incômodo gerado por nosso testemunho e nossa obediência a Jesus.

Jonathan Menezes

Professor da Faculdade Teológica Sul Americana, em Londrina-PR. Doutorando em História e Sociedade pela UNESP e mestre em História Social pela UEL. Autor de “Humanos, graças a Deus” e “Espiritualidade em Transformação”, ambos pela Editora Novos Diálogos. Casado com Cibele, pai de Cauã.