Durante vinte anos fui capelã do Hospital Evangélico, em Vila Velha, no Bairro Alecrim. Nos primeiros anos, ia de ônibus ao trabalho pela manhã, bem cedinho.  E retornava de ônibus, também, ao entardecer do dia.

Embora a viagem  às vezes, fosse tumultuada e cansativa, o ônibus também foi cenário de grandes lições de vida. Volta e meia, a gente encontrava ex- pacientes e ex-funcionários do hospital, o que era sempre motivo de muita alegria, emoção e festa.

Viajar ao Bairro Alecrim de ônibus era também uma forma de “pisar o chão que o nosso povo pisa” e manter o coração bem sintonizado com a gente sofrida dos bairros da vizinhança. Quem tem olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para perceber, consegue extrair muitas lições de uma viagem assim.

Uma manhã, na hora de ir ao Hospital Evangélico, sentei ao lado de um jovem muito humilde. Ele me recebeu com simpatia, cumprimentou e continuou escrevendo. Com a caligrafia de quem sabe escrever um pouco mais do que o próprio nome, e com a lentidão de quem precisa parar para pensar a cada letra que escreve, o moço desenhava algumas palavras sobre folhetos de evangelização. Emocionou-me tanto presenciar aquilo, e fiquei muito tocada pela seriedade com que o rapaz praticava o “Ide e anunciai o Evangelho”.

Quando terminou de escrever um dos folhetos, deu-me um de presente e me mostrou, muito feliz, uma Bíblia bem novinha.

– “Veja que Bíblia bonita, dona! Deve ser muito cara, né? Ganhei do dono de uma livraria evangélica. Ele simpatizou comigo, e quando viu que eu queria tanto ter uma Bíblia, mas não tinha dinheiro pra comprar, ele me deu uma de presente. Também me deu centenas destes folhetos para eu distribuir. Estou tão feliz com a Biblia que ganhei que quero falar de Jesus para todas as pessoas.”

O nome do moço era João. João, como um dos quatro evangelistas que registraram a história de vida de Jesus. João, de noite, era vigia. Quando largava o emprego, até ao meio-dia, ficava distribuindo folhetos, todos eles com uma carinhosa dedicatória à mão.

Que lição de vida João me deu! Senti muita vontade de compartilhá-la com vocês. Um dia, haverei de contá-la para os meus netos, pois crianças necessitam de exemplos assim.

Maria Luiza Ruckert

Maria Luiza Rückert é pastora com especialização em Capelania Hospitalar. Cursou Teologia na EST e Clínica Pastoral no Hospital da Universidade de Minnesota. Fez pós-graduação em Ética, subjetividade e cidadania na EST. Atuou por duas décadas no Hospital Evangélico de Vila Velha, ES. Autora do livro Capelania hospitalar e ética do cuidado (Editora Ultimato). Seu e-mail: maria.luiza.ruckert@gmail.com Seu site: www.capelaniamarialuiza.org.