As pessoas não sabem o que fazer com suas experiências de modo a que elas deem sentido a suas vidas. Elas simplesmente as vivem.

Não somos seres que apenas vivem, somos intérpretes de nossas vivências, nós as explicamos, nós as aplicamos e as tornamos sabedoria, conhecimento e ciência. Contudo, sem a devida interpretação, elas são somente um amontoado de peças desencaixadas, sem significado e, pior, sem sentido e, assim, sem propósito.

Como dar significado, sentido e propósito para a vida? Fácil, interpretando a própria experiência. Digamos que alguém vai ao médico com uma forte dor de cabeça. Ele, ela, apenas consegue dizer ao médico onde dói e, mesmo, confusamente, porque você sabe como as dores de cabeça se espalham para todo lado. Ele, o médico, vai usar de uma série de perguntas que, ao final, permitirá que ele descreva para você o que você sente, a partir do que fará o tratamento para sua cura. Você, então, irá embora dizendo que teve uma cefaleia, enxaqueca, etc. O que o médico fez foi servir de mediador entre você e a sua experiência de dor de cabeça possibilitando o devido entendimento e tratamento Ele não foi médico, ele foi um intérprete, ou o mediador do entendimento da sua experiência.

Pense, em outra experiência, agora, religiosa. Quando fiz minha conversão para Jesus Cristo, fiz com uma intensidade muito grande. Me esforcei por construir uma relação direta e pessoal com ele por meio de muita oração. Todo dia que voltava do trabalho, após banho e janta, me trancava no quarto e ficava orando. Gostava de orar pronunciando as palavras, porque isso me parecia mais real e facilitava a concentração. Numa das noites, as palavras não saíram do jeito normal, pronunciadas em português. Senti a língua enrolar na boca e outros sons estranhos, que eu jamais conheci saíam. Era algo incontrolável. Toda vez que abria a boca, eram aqueles sons que saíam. Naquela noite, parei de orar. Disse o ocorrido à pessoa que me levou de volta para Cristo Jesus. Ela me disse que, segundo os pentecostais, aquilo se chamava batismo com o Espírito Santo e a manifestação do dom de línguas. Eu estava pedindo que ela servisse de mediadora hermenêutica da minha experiência, e ela o fez. Daí para frente, passei a me considerar um pentecostal.

Portanto, toda experiência é interpretativa nela mesma. Precisamos apenas da língua e da linguagem e de duas pessoas que se entendam o suficiente para que o entendimento aconteça. É isso que, nós seres humanos, fazemos o dia todo e por isso, também, precisamos uns dos outros. Para isso buscamos as pessoas e elas nos buscam também. O que a hermenêutica faz é nos tornar conscientes desse processo de modo a torna-lo mais e mais eficaz e produtivo quando significar, dar sentido e propósito para a vida é tudo de que precisamos.

Sidney Sanches

Sidney de Moraes é teólogo doutor em Novo Testamento pela FAJE-BH, e aprecia as questões hermenêutico-filosóficas da pesquisa contemporânea do Novo Testamento, estudando a organização narrativa e testemunhal dos seus escritos no que tem a dizer sobre Jesus Cristo e a salvação.